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O mármore do anticlinal de Estremoz

O mármore do anticlinal de Estremoz
Foto: Cedida
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Transportado desde a Grécia Antiga por via marítima em blocos íntegros, ao ponto de dar nome ao mar de Mármora, ou já lavrado nas pedreiras em peças autónomas prontas a montar como forma de minimizar o volume e o peso do transporte, o marmor tornou-se a matéria-prima escultórica que melhor serviu, também como ideia de eternidade, à glória dos deuses e ao poder (e memória) dos homens.

Os seus belos e variados padrões cromáticos, muito favorecidos pelo polimento cristalino, aplicaram-se com frequência nos revestimentos parietais, nos lajeados, nos edificados monumentais ou nas simples peças decorativas e utilitárias em louvor de reis, papas e príncipes.

Pese embora a diversidade de cores e padrões, o branco estatuário de Luni-Carrara, explorado desde a Antiguidade nos Alpi Apuanes e concorrendo com o célebre mármore da ilha grega de Paros, tornou-se a matéria-prima mais afamada na cantaria artística, quer na cultura greco-romana, quer no Renascimento europeu.

Tal como Itália e Grécia, também Portugal tem o seu ‘marmo bianco statuario’, traduzido na feliz expressão inscrita em numerosos documentos antigos ‘pedra branca’ d’Estremoz. A ela se deve a melhor produção escultórica e arquitetónica da Lusitânia romana, de que Mérida, particularmente o seu Museu de Arte Romano, é um excelente exemplo; bem como o episódico fulgor criativo do século XIV alentejano, de que se destaca a arte tumulária regional, e ainda o património artístico renascentista, de que o exemplo de maior monumentalidade é, indiscutivelmente, a fachada do Paço Ducal de Vila Viçosa.

Acresce à importância artística do mármore o seu valor histórico e arqueológico. E isso acontece tanto para legitimar o valor probatório da própria Antiguidade, como para traduzir a ideia de antigo num contexto moderno. A reiterada inventiva epigráfica de André de Resende em Évora, traduzida, por exemplo, nas epígrafes apócrifas que consagram o aqueduto romano da cidade como suposta obra de Quinto Sertório, é um dos casos mais conhecidos do Renascimento português.

Mas a procura desses ‘sinais antigos’, na forma de aras, cipos e epígrafes marmóreas, teve particular importância histórica em Vila Viçosa no tempo do Duque de Bragança D. Teodósio I (c. 1510-1563). Nessa época, tinha “o duque nos seus grandes estados bancos de marmores alvíssimos, de veios amarelos, e doutras espécies, muitos excellentes”. Por isso não surpreende que uma obra de tamanha dimensão e significado como a reforma da capela-mor do Mosteiro dos Jerónimos tivesse sido integralmente produzida com o mármore das bancadas do anticlinal de Estremoz.

Mas o que hoje sabemos é que esta obra do Jerónimos, dirigida, aliás, pela rainha D. Catarina de Áustria, enquadra-se num poderoso movimento mecenático ligado ao mármore do anticlinal de Estremoz. Processo iniciado no final da década de 1520 com a edificação do portal da capela dos Morgados do Esporão, na Sé de Évora (1529-39), passou por realizações como o arco de honra da capela de D. Fardique de Portugal (1533), na igreja do Mosteiro de São Francisco de Estremoz, pelo monumental túmulo (1540-42) do Bispo da Guarda, D. Jorge de Melo, em Portalegre, e que deixou no meado do século um conjunto notável de realizações escultóricas em Évora, Arronches, Olivença, Elvas, Alter do Chão, todas elas a cargo de três ‘marmorários’ de altíssima competência técnica e artística, os franceses Nicolau Chanterene e Francisco Lorete e mestre local Pero Gomes de Estremoz.

Tais obras, nos seus diferentes propósitos funcionais, tiveram sempre um dominador comum: a fixação, através da qualidade da obra e da matéria, do prestígio, virtude e poder dos respetivos comitentes. E não se julgue tratar de encomendadores provindos apenas da esfera cortesã ou eclesiástica.

Também ao nível dos agentes municipais se constata essa dimensão laudatória em torno da obra marmórea, aliás, traduzida na feliz expressão de ‘enobrecimento’. Foi para enobrecer a vila de Alter do Chão que o Chafariz da Fontinha foi produzido no melhor mármore regional por vontade do senhor da terra, O Duque de Bragança. E assim foi o alçamento dos pelourinhos de Veiros e de Terena.

Este património do mármore do anticlinal de Estremoz que se distribui em realizações artísticas entre o Alentejo Central e a raia espanhola, é hoje um legado artístico da mais alta qualidade que importa preservar e valorizar, até por se tratar de mais um elemento de comunhão histórica entre os dois países ibéricos.

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