O Natal e a Passagem de Ano são, para muitos de nós, um tempo de suspensão das rotinas, suspendem-se horários e, quase sempre, suspendem-se também algumas regras alimentares. À mesa, multiplicam-se os doces, as sobremesas tradicionais, os chocolates e as bebidas alcoólicas geralmente acompanham conversas longas e reencontros. É o açúcar quem ganha protagonismo. A pergunta que importa fazer não é se devemos ou não consumi-lo nestas épocas, mas antes: o que faz o nosso corpo com esse excesso e o que acontece depois da festa acabar?
Quando ingerimos alimentos ricos em açúcares simples, estes são rapidamente absorvidos e entram na corrente sanguínea sob a forma de glicose. O organismo responde de imediato, libertando insulina, uma hormona essencial para permitir que essa glicose entre nas células e seja utilizada como fonte energética. Em condições normais, esta energia serve para alimentar as funções vitais, o movimento, o pensamento e até o simples facto de estarmos acordados.
Numa fase inicial, o corpo tenta ser eficiente. Parte dessa glicose é armazenada sob a forma de glicogénio, uma espécie de ‘reserva rápida’ que existe sobretudo no fígado e nos músculos. O glicogénio muscular é utilizado quando nos mexemos, caminhamos, treinamos ou realizamos qualquer tarefa fisicamente exigente. O glicogénio hepático ajuda a manter os níveis de açúcar no sangue estáveis entre refeições ou durante o sono.
O problema é que estas reservas têm um limite. Não são infinitas. Durante as épocas festivas, esse limite é rapidamente atingido. Com várias refeições ricas em hidratos de carbono, sobremesas sucessivas e, muitas vezes, menos atividade física, o organismo vê-se confrontado com uma abundância energética que não consegue ‘guardar’ apenas sob a forma de glicogénio. É aqui que entra o mecanismo que tantas vezes é visto como inimigo: o armazenamento de gordura.
Quando o açúcar ingerido não é gasto nem pode ser armazenado como glicogénio, o corpo converte esse excesso em gordura, não por falha metabólica, mas por sobrevivência. O tecido adiposo é, do ponto de vista evolutivo, uma reserva estratégica. O problema surge quando essa estratégia deixa de ser pontual e passa a ser repetida ano após ano, festa após festa, sem um período de compensação.
Alguns tipos de açúcar, como a frutose, muito presente em doces, refrigerantes e sobremesas industriais, merecem especial atenção. A frutose é metabolizada quase exclusivamente no fígado e, em excesso, favorece a produção de gordura hepática. Não provoca picos de glicemia tão evidentes como a glicose, mas isso não a torna inofensiva. Pelo contrário, o seu consumo elevado e regular associa-se a maior acumulação de gordura visceral, aquela que rodeia os órgãos, geralmente situa-se ao nível do abdómen e está ligada a um maior risco metabólico.
Chegados ao fim das festas, surge muitas vezes a ideia de “compensar os excessos”. Do ponto de vista fisiológico, esta noção até faz algum sentido, desde que seja encarada de forma realista e sustentável. O período pós-Natal e pós-Ano Novo pode ser uma oportunidade para o corpo utilizar parte dessas reservas acumuladas. A retoma da atividade física, seja através de caminhadas, treino de força, aulas de grupo ou simplesmente mais movimento no dia a dia, aumenta o consumo de glicogénio e melhora a sensibilidade à insulina.
O exercício físico funciona, assim, como um verdadeiro ‘consumidor metabólico’ dos excessos festivos. Não apaga o passado, mas reequilibra o presente. O problema é quando este momento nunca chega. Quando o regresso à rotina mantém padrões alimentares desequilibrados e os níveis de atividade física baixos, o corpo interpreta a abundância como norma. A gordura acumulada deixa de ser transitória e passa a ser estrutural. Importa sublinhar que esta reflexão não deve ser feita em tom de culpa.
Comer também é cultura, afeto, memória e pertença. O erro não está no Natal, nem na mesa partilhada, mas na ausência de consciência ao longo do resto do ano. O corpo humano é extraordinariamente adaptável, mas precisa de estímulos para gastar aquilo que recebe.
Talvez o maior desafio não seja ‘queimar’ os açúcares das festas, mas repensar a relação com o movimento e com a alimentação nos dias que se seguem. O equilíbrio não se constrói numa semana, mas também não se perde num jantar. O corpo regista tudo, mas também responde quando é chamado a agir. No fim de contas, os açúcares das épocas festivas podem ser combustível ou podem tornar-se reserva. A diferença está menos no que acontece entre o Natal e o Ano Novo e mais no que fazemos entre o Ano Novo e o próximo Natal.
