Os desportos de inverno exercem um fascínio particular: a montanha, o silêncio da neve, a velocidade do esqui, a exigência do snowboard ou a resistência do ski de fundo. No entanto, por detrás da estética e da adrenalina, existe um contexto fisiológico muito específico, marcado por dois grandes desafios ao organismo humano: a altitude e o frio.
Ao contrário de muitas modalidades praticadas ao nível do mar, os desportos de inverno decorrem frequentemente entre os 1.500 e os 3.000 metros de altitude, um ambiente onde a disponibilidade de oxigénio é menor e onde o corpo é obrigado a adaptar-se rapidamente.
À medida que a altitude aumenta, a pressão parcial de oxigénio diminui, o que significa que, mesmo respirando normalmente, chega menos oxigénio aos pulmões e, consequentemente, ao sangue. Este fenómeno reflete-se de forma quase imediata na saturação periférica de oxigénio (SatO₂), que tende a baixar, especialmente em indivíduos não aclimatados.
Para compensar esta menor disponibilidade de oxigénio, o organismo recorre a uma estratégia eficaz: aumentar a frequência cardíaca (FC). O coração bate mais vezes por minuto para tentar garantir que os tecidos continuam a receber oxigénio suficiente. É por isso comum que um esforço considerado ‘moderado’ ao nível do mar provoque, em altitude, valores de FC surpreendentemente elevados.
Nos desportos de inverno, esta resposta é ainda mais relevante, uma vez que muitos deles envolvem esforços intermitentes de alta intensidade, mudanças rápidas de direção e contrações musculares prolongadas, sobretudo dos membros inferiores.
Se a altitude já coloca desafios significativos, o frio acrescenta uma camada extra de complexidade. Em ambientes frios, o corpo ativa mecanismos de vasoconstrição periférica, reduzindo o fluxo sanguíneo da pele com o objetivo de preservar a temperatura central, e este ajuste tem implicações fisiológicas como o aumenta a resistência vascular periférica, o aumento da pressão arterial e como tal, obriga o coração a trabalhar contra uma maior resistência.
Em simultâneo, o frio pode induzir uma sensação enganadora de menor fadiga, levando o praticante a subestimar o esforço real que está a realizar. O resultado é uma combinação potencialmente exigente com a FC elevada, a SatO₂ reduzida e perceção subjetiva de esforço relativamente baixa.
A monitorização da frequência cardíaca e da saturação de oxigénio assume, neste contexto, um papel fundamental. Valores persistentemente elevados de FC, associados a quedas acentuadas da SatO₂, podem ser sinais de falta de aclimatação à altitude, fadiga excessiva e pode aumentar o risco de outros sintomas como tonturas, cefaleias ou náuseas.
Nos praticantes recreativos, estes sinais são frequentemente ignorados ou atribuídos apenas ao ‘cansaço normal’. No entanto, em indivíduos menos treinados, mais velhos ou com fatores de risco cardiovasculares, esta combinação pode representar um elevado stress fisiológico.
Uma boa adaptação aos desportos de inverno passa por princípios simples, mas muitas vezes esquecidos, tais como subir de altitude de forma progressiva, sempre que possível; evitar esforços máximos nos primeiros dias; garantir hidratação adequada (o frio aumenta as perdas hídricas, apesar de reduzir a sensação de sede); respeitar sinais do corpo, sobretudo alterações marcadas da FC e sintomas associados à hipoxia.
Do ponto de vista do treino e da saúde, os desportos de inverno são uma excelente oportunidade para estimular capacidades cardiovasculares e neuromusculares, mas exigem consciência fisiológica e respeito pelo ambiente.
Praticar desportos de inverno é muito mais do que deslizar sobre a neve. É expor o corpo a um contexto onde menos oxigénio e mais frio desafiam o coração, os pulmões e os músculos de forma integrada. Compreender a relação entre altitude, frio, frequência cardíaca e saturação de oxigénio permite não só melhorar o desempenho, mas sobretudo praticar com mais segurança e prazer.
