Quando o preço dos combustíveis aumenta, pensamos imediatamente no impacto sobre o orçamento familiar, no custo das deslocações para o trabalho ou no preço dos bens e serviços. Raramente pensamos no desporto. No entanto, para milhares de portugueses, sobretudo aqueles que vivem fora dos grandes centros urbanos, praticar desporto começa muitas vezes por uma ação tão simples quanto inevitável: entrar no automóvel.
Esta realidade merece atenção num país onde os níveis de prática de exercício e desporto continuam preocupantes. O Eurobarómetro sobre Desporto e Atividade Física revelou que 73% dos portugueses afirmavam nunca praticar exercício ou desporto, comparativamente a 45% no conjunto da União Europeia. Os dados da Organização Mundial da Saúde reforçam a necessidade de promover estilos de vida mais ativos, particularmente entre os grupos mais velhos. Perante este cenário, qualquer barreira adicional à prática de atividade física deve ser analisada não apenas como um problema desportivo, mas também como uma questão de saúde pública.
E é aqui que entra o preço dos combustíveis. Em setembro de 2026, os valores médios dos combustíveis em Portugal Continental ultrapassaram, em determinados momentos, os dois euros por litro (2€/L). Paralelamente, o Instituto Nacional de Estatística mostrou, através do Inquérito às Despesas das Famílias 2022/2023, que os transportes representavam cerca de 12% da despesa média anual dos agregados familiares portugueses.
Imaginemos agora uma família que necessita de percorrer 20 ou 30 quilómetros entre levar uma criança ao treino e regressar a casa, três vezes por semana. Ao fim de um mês são aproximadamente 360 quilómetros. Num automóvel com um consumo médio de 6,5 litros por 100 quilómetros e considerando um preço próximo dos 2,20 euros por litro, estamos perante uma despesa superior a 50 euros mensais apenas em combustível. Se adicionarmos competições ao fim de semana, deslocações adicionais, mensalidade, equipamento e inscrições, percebemos rapidamente que o verdadeiro custo da prática desportiva é bastante superior ao valor anunciado pelo clube. Esta questão torna-se ainda mais relevante quando uma família tem dois filhos a praticar modalidades diferentes ou quando o próprio adulto necessita de se deslocar vários quilómetros para frequentar um ginásio, piscina ou programa de exercício. Existe, por isso, uma desigualdade que raramente contabilizamos: a desigualdade geográfica no custo de ser fisicamente ativo.
Para quem vive numa cidade e dispõe de instalações desportivas, transportes públicos, ciclovias ou ginásios a poucos minutos de casa, um aumento de 20 ou 30 cêntimos no preço do combustível poderá ter um impacto relativamente reduzido na possibilidade de praticar exercício. Para quem vive numa pequena localidade e necessita de percorrer 20 ou 30 quilómetros para chegar a uma piscina, clube ou instalação desportiva, o mesmo aumento pode representar uma despesa mensal considerável.
No Alentejo, esta reflexão assume particular importância. A dispersão populacional, as grandes distâncias entre localidades e a menor disponibilidade de algumas respostas de transporte coletivo tornam o automóvel essencial para muitas atividades quotidianas. A OCDE tem salientado precisamente que as populações rurais tendem a percorrer maiores distâncias para aceder a diferentes serviços e apresentam maior dependência do transporte individual. Podemos, assim, imaginar uma cadeia aparentemente simples: aumento do preço dos combustíveis, aumento do custo da mobilidade, maior dificuldade de acesso, eventual redução da participação desportiva e, consequentemente, menor oportunidade de realizar atividade física, contudo, a relação não é tão linear. A investigação internacional apresenta um paradoxo interessante. Alguns estudos encontraram associações entre o aumento do preço dos combustíveis e maiores níveis de atividade física. A explicação é plausível: quando utilizar o automóvel se torna mais caro, algumas pessoas passam a caminhar mais, utilizar a bicicleta ou combinar deslocações pedonais com transportes públicos.
Estamos, portanto, perante dois cenários potencialmente distintos: nos territórios urbanos, aumentar o custo de utilização do automóvel poderá, em determinadas circunstâncias, estimular a mobilidade ativa; nos territórios rurais, onde caminhar ou utilizar bicicleta durante dezenas de quilómetros dificilmente constitui uma alternativa realista para aceder a uma instalação desportiva, o mesmo aumento poderá funcionar como uma barreira.
É aquilo que poderíamos designar por “paradoxo territorial do combustível”: a mesma alteração económica pode produzir consequências diferentes sobre a atividade física dependendo do local onde vivemos.
A questão ultrapassa ainda o cidadão individual. Clubes e associações desportivas também necessitam de deslocar atletas, treinadores e equipas. O aumento dos custos de transporte pode refletir-se nas despesas das organizações e, posteriormente, nas mensalidades ou taxas cobradas aos praticantes, criando uma segunda via através da qual o preço da energia pode afetar o acesso ao desporto, talvez seja, por isso, necessário começar a olhar para o preço dos combustíveis de outra forma. Não apenas como uma variável económica, energética ou ambiental, mas também como mais uma variável de acessibilidade ao desporto e à saúde.
Se queremos aumentar os níveis de atividade física da população, devemos perceber primeiro quanto custa realmente ser fisicamente ativo e até que ponto o território onde uma pessoa vive determina esse custo. Melhorar os transportes públicos, aproximar programas de exercício das populações, apoiar clubes que servem territórios dispersos, criar condições seguras para a mobilidade ativa e descentralizar a oferta desportiva podem ser verdadeiras políticas de saúde.
Porque, para muitas pessoas, a distância entre o sedentarismo e uma vida fisicamente ativa pode medir-se em quilómetros. E, cada vez mais, esses quilómetros também se pagam ao litro.
