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Inteligência artificial e promoção de estilos de vida ativos

Inteligência artificial e promoção de estilos de vida ativos
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A inatividade física é atualmente um dos maiores desafios da saúde pública global. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), um em cada quatro adultos não pratica atividade física suficiente, o que representa aproximadamente 1,4 mil milhões de pessoas em todo o mundo. Este fenómeno está diretamente associado ao aumento de doenças crónicas como a diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, obesidade, declínio cognitivo e menor qualidade de vida, sobretudo em populações mais vulneráveis. Para inverter esta tendência, é necessário adotar estratégias integradas e inovadoras que envolvam a tecnologia, a ciência dos dados e a personalização das intervenções.

É neste contexto que a inteligência artificial se destaca como uma ferramenta poderosa e transformadora. A inteligência artificial refere-se à capacidade de sistemas computacionais aprenderem autonomamente com dados, reconhecerem padrões complexos e tomarem decisões informadas. As suas principais áreas de aplicação incluem o machine learning, o processamento de linguagem natural e a visão computacional. Estas tecnologias permitem que os sistemas analisem informação em larga escala, compreendam linguagem humana e interpretem imagens ou movimentos, tornando-se particularmente úteis para o acompanhamento e promoção da saúde individual e coletiva.

Na saúde comunitária, a inteligência artificial representa uma revolução. Para além de acelerar diagnósticos e personalizar tratamentos, reduz custos operacionais e permite prever riscos antes que estes se manifestem clinicamente. O foco deixa de ser apenas a medicina reativa, centrada no tratamento da doença, e passa a ser uma medicina preventiva e proativa, que procura manter as pessoas saudáveis. A inteligência artificial tem um papel decisivo na promoção de estilos de vida ativos através de monitorização contínua, feedback em tempo real e personalização das recomendações.

Os dispositivos vestíveis, como relógios inteligentes e sensores corporais, recolhem continuamente dados sobre movimento, frequência cardíaca, sono, stress e gasto energético. Esses dados são processados por algoritmos de inteligência artificial que identificam padrões, detetam anomalias e ajustam automaticamente as recomendações. Assim, o utilizador passa a receber sugestões personalizadas para melhorar o seu comportamento físico e o seu bem-estar geral. Trata-se de uma nova forma de intervenção: mais precisa, imediata e adaptada à realidade de cada indivíduo.

A personalização é um dos grandes trunfos da inteligência artificial. Os programas de treino adaptam-se continuamente ao desempenho real, ao nível de energia e à recuperação do utilizador. Caso o sistema detete sinais de fadiga, reduz a intensidade do treino; se, pelo contrário, o utilizador mostrar progressos rápidos, o sistema aumenta o desafio. Além disso, os ‘chatbots’ inteligentes fornecem apoio emocional e motivacional, reconhecendo o estado de espírito do utilizador e oferecendo mensagens de encorajamento no momento certo. O recurso à gamificação com recompensas, desafios e metas personalizadas aumenta a adesão e o envolvimento, tornando a prática regular de exercício mais apelativa e sustentável.

Ao nível comunitário, o potencial da inteligência artificial é igualmente notável. Os algoritmos podem analisar dados demográficos e comportamentais para identificar grupos em risco, áreas prioritárias e fatores de vulnerabilidade. Essa análise permite criar políticas locais mais eficazes, desenhar espaços urbanos promotores de atividade física e desenvolver programas municipais inteligentes com monitorização contínua de impacto. Este ecossistema integrado potencia a colaboração entre profissionais de saúde, técnicos de desporto, urbanistas e decisores políticos, todos a trabalhar com base nas mesmas evidências geradas por inteligência artificial.

Os benefícios esperados são significativos: estudos apontam para um aumento de até 45% na adesão à atividade física quando as intervenções são personalizadas e mediadas por inteligência artificial, uma redução de cerca de 60% nos custos de saúde e uma efetividade até três vezes superior às abordagens tradicionais. Além disso, há um ganho importante na literacia em saúde, os cidadãos tornam-se mais conscientes do seu corpo e comportamento, assumindo maior responsabilidade pela própria saúde.

Contudo, esta transformação traz também desafios éticos e sociais que devem ser cuidadosamente considerados. A privacidade e segurança dos dados de saúde são preocupações centrais, exigindo encriptação rigorosa, consentimento informado e total transparência no uso da informação. O viés algorítmico é outro risco real: sistemas treinados com dados não representativos podem reforçar desigualdades de género, raça ou condição socioeconómica. Da mesma forma, a exclusão digital é um perigo pois, nem todos têm acesso à tecnologia ou literacia digital necessária, pelo que a inclusão deve ser um princípio orientador em todas as fases do processo.

Além disso, a inteligência artificial deve complementar, e não substituir, o contacto humano. Os profissionais de saúde continuam a ser insubstituíveis na empatia, no julgamento clínico e no apoio emocional. A tecnologia deve libertar tempo para reforçar a relação humana no cuidado e não reduzi-la a interações automáticas.

Casos recentes ilustram os riscos de uma utilização irresponsável da inteligência artificial, como chatbots que forneceram recomendações médicas erradas ou que influenciaram negativamente utilizadores vulneráveis. Estes episódios sublinham a necessidade de regulamentação robusta, como o ‘AI Act’ (Regulamento Europeu 2024/1689), que define padrões éticos, de transparência e de segurança para a utilização da inteligência artificial na União Europeia.

O futuro da saúde comunitária será, inevitavelmente, moldado pela colaboração entre a inteligência humana e a artificial. Médicos, investigadores, engenheiros e decisores devem trabalhar em conjunto para aproveitar o potencial da inteligência artificial, garantindo que a inovação tecnológica se traduz em benefícios reais para as pessoas.

A inteligência artificial não substituirá o médico ou o professor, mas amplificará as suas capacidades. Permitirá diagnósticos mais precisos, cuidados mais acessíveis e uma medicina mais humana, porque, paradoxalmente, quanto mais tecnológica a saúde se torna, mais essencial se torna a empatia. O futuro é uma parceria entre a intuição humana e a precisão computacional, construindo sistemas de saúde mais eficazes, inclusivos e sustentáveis.

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