Num mesmo praticável, corpos diferentes desenham movimentos semelhantes. Uns com limitações visíveis, outros sem elas. Mas naquele momento, não há diferença, há apenas confiança, ritmo e uma linguagem comum: a ginástica.
A ginástica acrobática é, por natureza, uma modalidade de interdependência. Não há execução sem confiança, não há equilíbrio sem o outro. Bases e volantes constroem, em conjunto, uma coreografia onde a força, a coordenação e a precisão técnica se fundem com uma dimensão relacional profunda. No entanto, quando a esta lógica se junta a acrobática adaptada, o que está em jogo ultrapassa claramente o domínio do desempenho desportivo. A acrobática adaptada surge como uma expressão concreta de inclusão no desporto, integrando atletas com diferentes tipos de deficiência (motora, intelectual ou sensorial) muitas vezes em pares mistos com ginastas sem deficiência. Mais do que adaptar exercícios, trata-se de adaptar olhares. E isso implica repensar conceitos tradicionais de rendimento, sucesso e até mesmo de perfeição técnica.
A evidência tem vindo a mostrar que o desporto inclusivo produz benefícios que vão muito além da componente física, estendendo-se ao plano psicológico e social. A melhoria da autoestima, o reforço do sentimento de pertença e a construção de relações significativas são apenas algumas das dimensões habitualmente destacadas. Ainda assim, há algo que a teoria dificilmente consegue captar na sua totalidade: a densidade humana que emerge no terreno. E foi precisamente aí, no contexto competitivo de um campeonato onde coexistiam provas de ginástica acrobática e acrobática adaptada, que essa realidade se tornou particularmente evidente.
Depois de um dia inteiro de competição com pares, trios, esquemas femininos, masculinos e mistos, a jornada não terminava com a última classificação. Havia ainda um outro momento, colocado no final do programa, mas que, pela sua natureza, acabava por recentrar tudo aquilo que tinha sido vivido até então. A ginástica acrobática adaptada não surgia como complemento, mas como extensão natural de um mesmo espaço competitivo.
Do ponto de vista da organização, esse caminho não tem sido imediato nem isento de dificuldades. Sandra Rodrigues, uma das responsáveis pelo evento, reconhece que este foi já o terceiro ano de realização, mas que o processo continua em construção. Há questões que persistem e que exigem resposta, sendo a mais evidente a da avaliação. “Os nossos juízes, infelizmente, não estão totalmente preparados para ajuizar este tipo de competição”, admite, com a frontalidade de quem não procura esconder as fragilidades, mas antes assumi-las como parte do processo.
Ainda assim, essa limitação não compromete a convicção. Pelo contrário, reforça-a. A parceria com a Cercibeja e o compromisso com esta vertente mantêm-se como pilares fundamentais do evento. “É um torneio que queremos manter sempre. É muito importante”, afirma, deixando claro que a inclusão, neste contexto, não é circunstancial, mas intencional.
E aquilo que sustenta essa intenção não é apenas a estrutura organizativa, mas sobretudo aquilo que acontece entre os participantes. “Os nossos ginastas, com e sem deficiência, criam aqui laços, tornam-se amigos e apoiam-se uns aos outros”, refere, sublinhando uma dimensão que ultrapassa o plano competitivo. Há convivência, há partilha, há reconhecimento mútuo. “O giro disto é eles conviverem e mostrarem as suas capacidades”, acrescenta, numa frase que traduz de forma simples aquilo que, na prática, se revela profundamente transformador.

Essa transformação não se esgota no momento competitivo. Prolonga-se no tempo e nos contextos de vida. “Eles estão muito mais abertos a este tipo de questões”, observa, referindo-se aos jovens ginastas sem deficiência, que, através desta experiência, passam a olhar de forma diferente para os outros. “Na escola e na sociedade acabam por ser embaixadores da inclusão”, afirma, identificando um efeito multiplicador que começa no praticável, mas não termina nele.
Se a organização reconhece o caminho e os seus desafios, é na voz de quem avalia que esses desafios ganham contornos ainda mais concretos. Carina Soares, juíza árbitra de ginástica acrobática, acompanhou toda a jornada competitiva e chegou a este momento com a experiência acumulada de um dia inteiro de avaliação técnica. Ainda assim, a acrobática adaptada coloca questões distintas, que não se resolvem com a simples aplicação dos mesmos critérios. “É um momento excelente, é a parte da inclusão, todos têm que estar incluídos em qualquer modalidade”, começa por afirmar, reconhecendo a importância do momento. Mas rapidamente introduz a complexidade que lhe está associada. “Temos muito a evoluir na ginástica”, admite, apontando para um caminho que ainda está a ser construído. A dificuldade, como explica, está na própria natureza da diversidade presente. “Cada ser tem a sua autonomia, a sua forma de estar… é difícil nós conseguirmos comparar cada par, cada grupo”, refere, evidenciando os limites de uma lógica avaliativa baseada na comparação direta. “Eles têm diversidades diferentes, em termos de locomoção, motricidade fina… especificidades que estão inerentes à patologia”, acrescenta, tentando nomear aquilo que escapa a uma grelha uniforme.
Perante essa realidade, a resposta não pode ser apenas técnica. Exige sensibilidade, conhecimento contextual e proximidade. “Acho que devíamos incluir quem trabalha com eles todos os dias nesta parte do ajuizamento”, sugere, reconhecendo que esses profissionais detêm uma compreensão mais profunda dos atletas. “Eles têm uma maior sensibilidade, conhecem-nos melhor e conseguem transmitir-nos aquilo que nós, que não estamos no dia a dia, não conseguimos perceber da mesma forma”.
E, ainda assim, no meio desta complexidade, há uma palavra que surge com clareza inesperada: privilégio. Avaliar, neste contexto, não é apenas um exercício técnico. “É um privilégio enorme”, afirma, condensando numa expressão simples a consciência de que está perante algo que ultrapassa a própria lógica da avaliação.
É nessa interseção entre exigência e humanidade que se inscreve também o trabalho da Cercibeja. Vera Neca, Presidente do Conselho de Administração, enquadra este momento como o resultado de um percurso longo e consistente. “A Cercibeja trabalha há 48 anos com pessoas com necessidades especiais”, começa por referir, situando o contexto de intervenção da instituição.
Ao longo desse percurso, a lógica tem sido clara: criar oportunidades significativas. “Aquilo que procuramos é proporcionar experiências aos nossos jovens adultos e, quando essas experiências são prazerosas para eles, dar continuidade”, explica. Não se trata de experimentar por experimentar, mas de construir caminhos que façam sentido para quem participa.
Foi nesse enquadramento que surgiu a aproximação à ginástica acrobática adaptada. “Foi uma experiência que fizemos com a Academia de Desporto de Beja”, refere. Uma primeira tentativa, aberta, sem garantias. Mas a resposta dos participantes acabou por orientar o caminho. “Correu bem. Eles aceitam qualquer desafio”, afirma, numa frase que diz tanto sobre os jovens como sobre a própria decisão de avançar.
A experiência transformou-se em prática regular. “Começámos a dar continuidade e a aprofundar a experiência”, acrescenta. E hoje o cenário é claro: “Eles participam e estão super entusiasmados”.
Mas, mais uma vez, não é apenas a participação que importa. É aquilo que dela resulta. “Só quando estamos a observar é que percebemos a relação que está estabelecida entre eles”, sublinha, chamando a atenção para uma dimensão que não se planeia, mas que emerge “Na forma como se entreajudam, como vivem estes momentos em conjunto”.
E é nesse ponto que se define o verdadeiro objetivo. “Tornar estes momentos e estas práticas de todos e para todos”.
Se a instituição constrói o caminho e a organização o operacionaliza, é nas ginastas que esse caminho ganha corpo.
Sofia Ferreira e Tamara Nunes, atletas do Club Acro (Associação Cultural e Recreativa de Ourique) não falam em conceitos. Falam em experiência vivida, com a honestidade de quem não precisa de elaborar para ser compreendido.

E essa experiência, no caso de Tamara, começou com resistência. “No início eu não queria fazer”, admite, de forma direta. A proposta partiu do treinador, Paulo Nunes (seu pai), que lançou o desafio de integrar a vertente adaptada. E apesar de um contexto pessoal marcado por uma experiência difícil no passado, que inicialmente gerava algum receio perante este tipo de realidade, “Estava com medo de começar a fazer com alguém que também tinha essas dificuldades”. Mas acabou por prevalecer a vontade de enfrentar o desafio e crescer com ele. A mudança não foi imediata, mas aconteceu. “Depois percebi que tinha que experimentar coisas novas”, afirma. E essa decisão abriu um novo espaço. “Desde que estou a fazer, estou a adorar. É mesmo bem fixe”.
Os treinos ganharam regularidade (“temos treinos às sextas, das duas e meia às quatro”) mas aquilo que mais marca o discurso não é a estrutura, é a relação. “Sentimos um gosto enorme de trabalhar com eles”, dizem. E essa relação é percebida como recíproca. “Eles ficam muito felizes, muito agradecidos”, acrescentam, referindo-se ao impacto que a inclusão tem nos próprios colegas. “Por ver que nós os incluímos na ginástica, que supostamente é uma coisa muito complicada para esses meninos”, explicam, revelando ao mesmo tempo a desconstrução de uma ideia prévia. “Eu acho que eles gostam muito de nos ter lá e ficam muito agradecidos”.
Mas talvez o impacto mais significativo esteja fora do praticável. “Os nossos amigos ficam com uma visão muito diferente desses meninos”, afirmam, sublinhando a transformação que esta experiência provoca nos pares. “Desperta neles curiosidade em trabalhar com eles também”.
E essa mudança torna-se visível em exemplos concretos. “Nós temos raparigas que não queriam fazer, diziam ‘não, nunca’… e depois perceberam que é fixe, como eu no início, e agora também gostam muito”.
Aqui, a inclusão deixa de ser discurso. Torna-se experiência partilhada. E, mais do que isso, torna-se contagiosa.
Nos praticáveis, tudo isto se materializa em pequenos gestos. Um ajuste de equilíbrio, um olhar de confirmação, um sorriso no final de uma rotina. Detalhes que passam despercebidos a quem vê de fora, mas que, para quem está dentro, explicam tudo. Talvez o maior ensinamento deste campeonato não esteja nas classificações. Talvez esteja naquilo que nos obriga a repensar o próprio conceito de desempenho.
Porque, no fundo, a maior conquista poderá estar naquilo que Vera Neca sintetizou de forma tão simples quanto poderosa: “que se torne normal que todos possamos estar em todos os espaços”.
No final, quando o praticável fica vazio e o ruído dá lugar ao silêncio, permanece uma certeza difícil de ignorar: a verdadeira acrobática não está apenas nos elementos executados, mas na capacidade de elevar o outro. E essa, talvez, seja a forma mais pura da excelência.
José Alberto Parraça
