Com base no relatório ‘Perfil de Saúde do País 2025’ Portugal apresenta um quadro globalmente favorável da saúde da população portuguesa, embora marcado por fragilidades estruturais persistentes. Em 2024, a esperança de vida à nascença atingiu 82,7 anos, ultrapassando a média da União Europeia e superando os níveis pré-pandemia. Contudo, este ganho quantitativo não se traduz plenamente em anos vividos com boa saúde, já que apenas 54% da população com 16 ou mais anos refere ter boa ou muito boa saúde, valor claramente inferior à média europeia. Esta perceção é ainda mais desfavorável entre as mulheres e os grupos com menores rendimentos, evidenciando desigualdades sociais relevantes no estado de saúde.
O perfil epidemiológico português continua a ser dominado pelas doenças cardiovasculares e pelo cancro, que, em conjunto, representam cerca de 48% dos óbitos. Ainda assim, o relatório assinala progressos importantes, nomeadamente a redução da mortalidade por acidente vascular cerebral e o regresso das taxas de mortalidade evitável e tratável à trajetória anterior à pandemia. Estes dados sugerem uma capacidade razoável do sistema de saúde para responder a problemas clínicos de maior dimensão, embora persistam áreas com margem de melhoria.
O envelhecimento demográfico constitui um dos principais desafios identificados. Portugal é um dos países mais envelhecidos da União Europeia, com uma elevada proporção de pessoas com 65 ou mais anos e uma tendência de agravamento nas próximas décadas. O problema não reside apenas no aumento da longevidade, mas também no facto de muitos desses anos adicionais serem vividos com doença crónica, limitação funcional e maior necessidade de cuidados. O relatório destaca, por isso, a necessidade de reforçar políticas de envelhecimento ativo e saudável, bem como de reorganizar a resposta dos cuidados de saúde e dos cuidados continuados.
No que respeita aos fatores de risco, Portugal apresenta uma situação mista. A prevalência do tabagismo permanece abaixo da média da União Europeia, mas os progressos abrandaram. Em contrapartida, o consumo de álcool continua elevado e a obesidade mantém-se ligeiramente acima da média europeia. Mais preocupante ainda é a forte associação entre obesidade e desigualdade educativa, o que confirma o peso dos determinantes sociais da saúde no contexto português. Assim, apesar de alguns indicadores favoráveis, os comportamentos de risco continuam a contribuir de forma importante para a carga de doença.
No plano financeiro, a despesa em saúde por habitante permanece abaixo da média da União Europeia. Em 2023, Portugal gastou 3.001 euros per capita, valor inferior ao europeu, embora a despesa total em saúde em percentagem do PIB esteja alinhada com a média da União Europeia. O dado mais crítico prende-se com a estrutura de financiamento: apenas 62% da despesa é assegurada por fundos públicos, ao passo que os pagamentos diretos das famílias atingem 29%, um dos valores mais elevados da União Europeia.
Este padrão traduz uma proteção financeira limitada e ajuda a explicar as dificuldades de acesso sentidas por parte da população. Uma parte significativa da população continua a enfrentar necessidades médicas e, sobretudo, dentárias não satisfeitas, devido a custos, distância geográfica ou tempos de espera. Estas dificuldades são substancialmente mais frequentes entre as pessoas em risco de pobreza, o que reforça o caráter socialmente desigual do acesso aos cuidados. Paralelamente, a pressão sobre os recursos humanos é apontada como uma vulnerabilidade central do sistema, sendo referidos o envelhecimento dos profissionais, as cargas de trabalho elevadas e a insuficiência de médicos de família.
Apesar destas limitações, o relatório do ‘Perfil de Saúde do País 2025’ reconhece pontos fortes no sistema de saúde português, designadamente bons resultados em alguns indicadores de eficácia clínica e um grau de maturidade digital acima da média europeia. Portugal surge como um sistema capaz de gerar resultados relevantes, mas confrontado com tensões estruturais que exigem reformas orientadas para a equidade, a sustentabilidade financeira e a capacidade de resposta.
Posto isto, o principal desafio para Portugal não é apenas viver mais, mas garantir que esses anos adicionais sejam vividos com melhor saúde, maior proteção social e acesso mais justo aos cuidados.
José Alberto Parraça & Vanda Lapão Silva
