Vivemos numa época em que os números do futebol parecem ter deixado de nos surpreender. Cinquenta milhões. Oitenta milhões. Cem milhões. Cento e vinte e cinco milhões de euros. Durante o mercado de transferências, ouvimos estes valores com uma naturalidade impressionante. Discutimos se determinado jogador é caro ou barato, se tem potencial, quantos golos poderá marcar ou quanto poderá valer daqui a alguns anos.
Mas raramente fazemos a pergunta mais simples: quanto são, realmente, 125 milhões de euros? Por exemplo, Yan Diomande custou ao Real Madrid cerca de 125 milhões de euros. Não pretendo discutir se vale esse dinheiro. Deixo essa análise para quem percebe mais de futebol.
O que proponho é um exercício diferente: retirar, por alguns minutos, o símbolo € do mercado futebolístico e colocá-lo na saúde. De repente, os números ganham outra dimensão. Tomemos alguns exemplos portugueses. Um concurso público do INEM para aquisição de 100 desfibrilhadores automáticos externos estabeleceu um preço-base de aproximadamente 240 mil euros. Uma conta meramente aritmética permite perceber que 125 milhões corresponderiam a cerca de 52 mil desfibrilhadores. Outro exemplo. A aquisição de um equipamento de ressonância magnética para um Hospital português teve um preço-base de aproximadamente 1,3 milhões de euros. Pelo valor de um único jogador estaríamos, portanto, a falar do equivalente a cerca de 96 equipamentos de ressonância magnética daquele valor.
Se trouxermos esta reflexão para as regiões do interior, frequentemente marcadas pela ruralidade, pelas desigualdades territoriais e por maiores dificuldades no acesso a cuidados de saúde especializados, os números ganham outra dimensão. Um investimento de aproximadamente 5,57 milhões de euros permite adquirir dois aceleradores lineares, uma TAC e um angiógrafo, equipamentos que representam capacidade de diagnóstico, acesso atempado a tratamentos e, em muitos casos, esperança para milhares de pessoas. Numa comparação estritamente matemática, uma transferência futebolística de 125 milhões de euros permitiria concretizar cerca de 22 investimentos desta dimensão.
E o Diomande não chegou sozinho. Somando outras contratações milionárias do Real Madrid, como Cucurella, Carlos Espí ou Dumfries, rapidamente nos aproximamos de valores superiores a 200 milhões de euros investidos em jogadores.
É importante esclarecer algo antes que esta reflexão seja interpretada como aquilo que não é. Não estou a defender que os clubes deixem de contratar jogadores ou que o dinheiro do Real Madrid devesse financiar hospitais portugueses. Seria uma comparação economicamente simplista e absurda. O futebol profissional é uma indústria privada global que gera emprego, impostos, turismo, publicidade, direitos televisivos e entretenimento. Além disso, o desporto possui um valor social e educativo que não deve ser ignorado. A questão é outra.
O que dizem estes números sobre a nossa escala coletiva de prioridades? Conseguimos aceitar 100 milhões por um futebolista com relativa naturalidade, mas discutimos intensamente alguns milhões destinados à prevenção da doença, à investigação científica ou à promoção de estilos de vida saudáveis, e talvez exista aqui um paradoxo particularmente interessante. Normalizou-se o investimento de milhões na expressão máxima da capacidade física de alguns seres humanos e, simultaneamente, continua-se a investir insuficientemente para que milhões de outros seres humanos possam simplesmente mover-se mais.
Não precisamos apenas de mais hospitais, equipamentos ou medicamentos, precisamos de chegar às pessoas antes de elas precisarem deles. Num país envelhecido como Portugal, investir em exercício físico, prevenção das quedas, combate à obesidade, diabetes e doença cardiovascular, manutenção da capacidade funcional e redução do isolamento social não pode continuar a ser visto como uma despesa secundária.
Um programa de exercício físico para uma pessoa idosa pode parecer insignificante quando comparado com uma ressonância magnética. Mas se esse programa contribuir para evitar uma queda, preservar autonomia, atrasar a dependência ou reduzir o risco cardiovascular, talvez estejamos perante um dos investimentos mais inteligentes que um sistema de saúde pode fazer. É esta mudança de perspetiva que consideramos necessária: deixar de pensar na saúde apenas como o dinheiro necessário para tratar a doença e começar a pensar no investimento necessário para preservar a saúde.
O futebol percebeu isto há muito tempo. Os grandes clubes investem antes do resultado. Procuram talento, desenvolvem jogadores, monitorizam o desempenho, utilizam ciência e tecnologia e tentam prevenir lesões. Ninguém espera que um atleta se lesione gravemente para começar a cuidar dele.
Curiosamente, na saúde das populações faz-se demasiadas vezes o contrário. Esperamos pela hipertensão, pela diabetes, pela obesidade, pela queda, pela perda de autonomia ou pela doença cardiovascular. Depois mobilizamos recursos extraordinários para tratar aquilo que, em alguns casos, poderíamos ter ajudado a prevenir.
Não está, portanto, em causa escolher entre futebol e saúde. Está em causa perceber aquilo que valorizamos e, sobretudo, aquilo em que decidimos investir antecipadamente. Uma contratação de 125 milhões pode ajudar a ganhar uma Liga dos Campeões. Um investimento muito menor em prevenção pode ajudar milhares de pessoas a ganhar algo ainda mais importante: anos de vida com saúde, independência e qualidade.
No futebol, no final da época, contamos golos, pontos e títulos. Na saúde, talvez devêssemos aprender a contar melhor os anos de vida saudável, a autonomia preservada, as doenças evitadas e as pessoas que conseguimos manter ativas nas suas comunidades.
Por isso, quando voltarmos a ouvir que determinado jogador custou 50, 80 ou 125 milhões de euros, talvez possamos continuar a discutir se foi caro ou barato. Mas acrescentemos apenas uma pergunta. Quantas vidas cabem em 125 milhões de euros?
