A promoção da atividade física e a redução do comportamento sedentário continuam a assumir um papel central nas agendas contemporâneas de saúde pública, tendo em conta a associação amplamente reconhecida entre níveis insuficientes de atividade física e o aumento da prevalência de doenças crónicas não transmissíveis, como a diabetes, as doenças cardiovasculares e várias perturbações da saúde mental.
Para além das implicações individuais, este problema repercute-se também ao nível dos sistemas de saúde e da organização social, traduzindo-se em maior necessidade de medicação, aumento do absentismo laboral e crescente pressão sobre os serviços de saúde.
Apesar do consenso existente relativamente à importância da prática regular de atividade física, os níveis de sedentarismo mantêm-se elevados. Em Portugal, uma proporção expressiva da população adulta continua sem atingir as recomendações mínimas de atividade física, o que evidencia a insuficiência das estratégias atualmente implementadas e reforça a necessidade de repensar os modelos de intervenção.
De forma recorrente, a literatura e o discurso institucional identificam como principais barreiras à prática a falta de tempo, a baixa motivação, os custos associados e diversas dificuldades logísticas. Embora este diagnóstico esteja amplamente consolidado, subsiste uma dimensão frequentemente subvalorizada nas políticas e programas de promoção da atividade física: o contexto familiar. Grande parte das abordagens existentes continua centrada no indivíduo, assumindo implicitamente que a prática de atividade física depende sobretudo da capacidade pessoal de organização, da gestão do tempo e da responsabilização individual. Contudo, esta perspetiva revela-se limitada face à complexidade das dinâmicas quotidianas. As famílias contemporâneas vivem sob forte pressão temporal, marcadas por rotinas fragmentadas, sobrecarga de tarefas, multiplicidade de papéis e crescente mediação tecnológica, fatores que reduzem significativamente o tempo partilhado e favorecem formas passivas de ocupação do tempo.
Neste enquadramento, a atividade física tende a ser percecionada como uma tarefa adicional a integrar numa rotina já saturada, em vez de ser entendida como uma prática compatível com a organização da vida familiar. É precisamente neste ponto que o modelo predominante parece falhar. As barreiras à prática não podem ser interpretadas apenas como obstáculos individuais; são, em larga medida, condicionadas por fatores estruturais relacionados com a gestão do tempo, a organização das responsabilidades familiares e a ausência de respostas adaptadas aos contextos reais de vida.
Para muitas mães, e também para muitos pais, a prática de exercício físico implica frequentemente uma escolha difícil entre o autocuidado e o acompanhamento dos filhos. A impossibilidade de conciliar estas duas dimensões gera custos consideráveis em termos de tempo, energia e recursos financeiros, contribuindo para o abandono da prática e para a manutenção de estilos de vida sedentários.
Neste sentido, importa reformular a questão de partida. O problema não reside apenas no facto de as pessoas não praticarem exercício físico, mas também no modo como a prática tem sido conceptualizada e organizada socialmente. Quando a atividade física deixa de ser pensada como uma responsabilidade exclusivamente individual e passa a ser encarada como uma prática partilhada, deixa de competir com as exigências da vida quotidiana e passa a integrar-se nela de forma mais funcional e sustentável.
É neste contexto que a atividade física em família emerge como uma possibilidade particularmente relevante, embora ainda insuficientemente explorada. Do ponto de vista logístico, esta abordagem permite articular rotinas e reduzir a complexidade da organização diária. Do ponto de vista económico, pode evitar a duplicação de custos associados à participação em atividades distintas para diferentes elementos do agregado. Contudo, a sua principal mais-valia reside na possibilidade de converter o movimento em tempo de qualidade, promovendo presença, interação e comunicação entre os membros da família.
Acresce que a prática partilhada de atividade física pode gerar benefícios que ultrapassam a dimensão estritamente fisiológica, contribuindo também para o bem-estar emocional, o reforço dos vínculos familiares e a melhoria do funcionamento global da família enquanto sistema relacional. Ainda assim, esta perspetiva permanece pouco integrada nas respostas institucionais existentes.
Torna-se, por isso, necessário desenvolver programas e políticas que incorporem de forma mais explícita a realidade familiar nas estratégias de promoção da atividade física. Tal implica, entre outros aspetos, a criação de programas locais orientados para a participação familiar, a disponibilização de espaços compatíveis com a presença de crianças e a definição de horários ajustados às exigências da vida profissional e doméstica. Mais do que segmentar públicos-alvo, importa reconhecer e integrar os contextos concretos em que a vida quotidiana acontece.
Neste processo, municípios, escolas, clubes e organizações comunitárias assumem um papel determinante. Promover a atividade física não pode continuar a significar a sua dissociação da vida familiar; deve, pelo contrário, traduzir-se na capacidade de a integrar de forma efetiva, no entanto, enquanto persistir um modelo excessivamente centrado no indivíduo, os resultados tenderão a repetir-se: baixa adesão, elevada desistência e manutenção de desigualdades no acesso à prática.
Em suma, a mudança necessária não depende exclusivamente de maior motivação individual, mas de uma transformação conceptual e organizacional das estratégias de promoção da atividade física. Para muitas pessoas, a atividade física em família não constitui apenas uma alternativa desejável, mas a única solução viável no contexto da vida real. Assim, mais do que um problema de vontade, o desafio parece residir na ausência de modelos de intervenção ajustados às condições concretas em que as famílias vivem.
José Parraça & Susana Garradas
